Grandes pilotos do passado: O últimoVicking

É com um imenso prazer e um grande atraso que venho apresentar para vocês, uma coluna sobre a carreira de um piloto da Fórmula Indy que talvez tenha sido um dos últimos ases que me despertaram um grande sentimento de admiração, não só pelo estilo de pilotagem mas também pela personalidade única e diferenciada da maioria dos pilotos “modernos”, sempre tão iguais, vazios e “robóticos” em suas atitudes. Estou falando de alguém que veio de um país de onde surgiram alguns dos pilotos mais espetaculares já vistos nas principais categorias do automobilismo mundial, como por exemplo ninguém menos do que Ronnie Peterson, o corajoso sueco que registrou o seu nome para sempre no coração dos amantes da velocidade, através de seu arrojo e pilotagem traseira. Kenny Brack, o último sueco voador, é o personagem principal da coluna de hoje. Muito bom escrever sobre Kenny, alguém que é proveniente de uma fina linhagem de pilotos, como o já citado Ronnie Peterson, Gunnar Nilsson, Keke Rosberg (que embora tenha corrido pela bandeira da Finlândia, nasceu na Suécia) e tantos outros que correm pelas categorias do mundo, como atualmente o espetacular Mattias Ekström, bi-campeão do DTM.

Kenny Brack em Monaco 1993, disputando a Clio Cup Elf, preliminar do GP de F1.

Kenny Brack, depois de matar a saudade do antigo Volvo de seu pai, carro onde aprendeu a dirigir.

Certamente muitos outros que acompanharam a antiga CART e IRL, sentem falta da presença de Kenny nas pistas. Não fosse o horrível acidente sofrido por Kenny durante o GP do Texas de 2003, talvez o sueco estivesse correndo até hoje, quem sabe em uma equipe de ponta?
Antes de falarmos sobre a atuação de Kenny Brack em seus tempos de CART/IRL, é inevitável falar da maneira espetacular como ele começou sua carreira, ainda quando criança.

Na equipe Super Nova de F3000, liderando o grid em Hockenheim.

Testando a Benetton B195 em Silverstone 1995.

Kenneth “Kenny” Brack, nasceu em uma pequena cidade chamada Arvika, na província de Värmland, tendo crescido no minúsculo vilarejo de Glava, lugar com pouco mais de 200 habitantes. Kenny aprendeu a dirigir da mesma maneira que muitos meninos nascidos em regiões pouco habitadas no mundo, sentado no colo do pai, comandando o volante enquanto o pai aciona os pedais e câmbio. Com oito anos de idade, Brack já tinha altura suficiente para alcançar os pedais e talvez seja nessa fase de sua vida que ele tenha começado a desenvolver suas habilidades ao volante, só que diferentemente da maioria dos pilotos que sentam em um kart da categoria cadete assim que ultrapassam os seus anos, Brack aprendeu a “segurar” um carro, dirigindo o velho Volvo 240 de seu pai em um lago congelado perto de sua casa. Muitos entusiastas do mundo da velocidade costumam dizer que o sucesso dos pilotos nascidos em países nórdicos é em grande parte creditado ao fato de os mesmos dirigirem pelo gelo desde pequenos. Dessa maneira, imaginamos que para alguém que consegue controlar um carro grande e pesado em cima de uma superfície congelada, talvez não seja tão difícil controlar um monoposto de competição que tenha uma leve tendência a escapar de traseira, por exemplo. Pois bem, depois de certo tempo o pai do até então pequeno Kenny, já não era mais tão liberal com o filho, pois os efeitos das brincadeiras com o velho Volvo começavam a aparecer em forma de pastilhas de freio gastas e alguns “prejuízos” a mais. Vendo essa situação, um vizinho da família de Brack, que observava a empolgação do menino a brincar no lago congelado, deu de presente para Kenny um Saab V4, para que a diversão não acabasse. Um detalhe curioso é que o Saab era “calçado” com pneus convencionais, sem as típicas correntes usadas no inverno europeu para evitar derrapagens. Depois de um ano juntando dinheiro e continuando a treinar no gelo, Kenny conseguiu comprar um jogo de pneus de rally para equipar o seu Saab. Isto foi o estopim para que Brack quisesse testar suas habilidades, mesmo que de maneira pouco eficiente e proveitosa, como em competições de rally “às escondidas” com garotos mais velhos e pequenas corridas em estradas desertas. Percebendo que as brincadeiras locais não iriam mais levá-lo a lugar algum, Kenny decidiu que queria fazer algo mais profissional e que iniciar uma carreira no kart seria a maneira mais concreta de fazer algo acontecer. Para conseguir comprar o seu kart, Kenny trabalhava em um mercadinho local, onde todo o pequeno salário que recebia era gasto com treinos e peças. Depois de alguns anos aprendendo as técnicas de pilotagem e segredos do automobilismo através do kart, Brack decidiu que já estava na hora de passar a correr em categorias de fórmula de base, porém como não vinha de uma família abastada, começou a perceber como era um caminho árduo o do automobilismo profissional. Novamente Brack foi salvo pelo seu caridoso vizinho, o mesmo que havia lhe “doado” o velho Saab. Dessa vez o presente foi um pequeno contrato de patrocínios com uma empresa de ônibus local e um grupo de pop music cafona chamado “Vikingarna”. Foi um período difícil para o sueco, tendo sempre que correr atrás de patrocinadores e quase sempre recebendo um “não” como resposta, tanto que Brack afirma ter conhecido quase todos os representantes de marketing da Suécia.

Teste na Arrows em 1996. Brack recusou guiar um carro tão ruim.

Com o dinheiro dos dois pequenos patrocinadores, Kenny ingressou na Fórmula Ford Suéca, onde conquistou o título no ano de 1986, abrindo portas para que depois de um ano pudesse subir de categoria, participando do campeonato sueco de Fórmula 3, onde obteve uma excelente primeira temporada com uma vitória e quatro pódios. Em 1989, além de continuar na F3 Suéca, Kenny também competiu na reconhecidamente prestigiada F3 Britânica, onde obteve três vitórias. No ano seguinte, Kenny resolveu disputar a Fórmula Opel Lotus Internacional, onde viria a enfrentar além de futuros pilotos de Fórmula 1 e CART como Rubens Barrichello e André Ribeiro, aquele que anos depois se tornaria um dos meus maiores rivais na CART: Gil De Ferran.
Vale lembrar que a Fórmula Opel Lotus era uma categoria muito consagrada e que revelou inúmeros talentos. A principal característica do campeonato, era a igualdade dos carros, que tinham chassis fabricados pela Reynard e utilizavam o potente motor 4 cilindros da General Motors de 2.0 litros com 16 válvulas, ignição eletrônica, dupla carburação e 158 cavalos de potência. Era o mesmo motor daquele utilizado no nosso conhecido Kadett Gsi, porém em sua versão européia. O carro atingia uma velocidade máxima de 260 km/h. Brack conquistou um pódio em seu primeiro ano na competitiva categoria e na temporada seguinte em 1991, conseguiu mais três pódios. Os troféus conquistados por Kenny nos dois anos de F-Opel, são mais creditados ao talento do sueco do que ao mérito de sua equipe, que era muito mal organizada. Chateado com isso, Kenny decidiu que só disputaria corridas com sua equipe, quando tivesse o dinheiro necessário para uma assistência que lhe permitisse brigar por vitórias. O português Pedro Lamy, até então futuro piloto de F1 foi o campeão da Opel Lotus naquele ano.

Uma de suas belas vitórias na F3000.

Desiludido com a falta de condições financeiras para demonstrar o seu verdadeiro potencial, Kenny decidiu mudar o foco de sua carreira. Voltou para a Suécia a fim de participar da Renault Clio Cup Elf Suéca, visando correr no certame internacional da categoria no ano seguinte. Kenny venceu nada menos do que nove das dez corridas do campeonato! Em 1993, Kenny participou de quatro corridas da Renault Clio Cup Elf International e venceu duas delas, sendo uma em Mônaco. Como as corridas da Clio Cup eram preliminares dos GPS de Fórmula 1, as duas vitórias de Brack lhe proporcionaram enorme divulgação. Além disso, naquela temporada, Kenny também tomou uma das maiores decisões de sua vida, disputar o campeonato da Zerex Barber Saab, realizado nos EUA. Seria o primeiro contato do piloto com o mundo automobilístico aonde viria a obter sua consagração. Brack venceu seis corridas das dez do calendário do campeonato norte-americano. Mais uma ótima surpresa viria para Kenny ainda em 1993: O convite para testar nada menos do que o carro de Fórmula 1 campeão daquele ano, a Williams Renault FW15 de Alain Prost. O teste aconteceu em Paul Ricard em um dia chuvoso e Brack superou todas as expectativas, o que lhe trouxe novas esperanças para um futuro em uma categoria top, já que depois de seu teste na Williams, várias equipes de Fórmula 3000 ficaram de olho no sueco. Em 1994 Brack correu pela equipe Madgwick International na F3000 e conseguiu conquistar um pódio no seletivo e lendário circuito de Spa Francorchamps. No ano seguinte, Kenny fez um belo campeonato, vencendo em Magny Cours na França e conquistando mais três poles, finalizando o campeonato na terceira colocação e recebendo um convite para testar pela Benetton em Silverstone.


Kenny Brack testando a Williams Renault FW15 de Alain Prost em Paul Ricard, 1993.

A consagração do talento veio em 1996, onde Kenny, agora correndo pela equipe Super Nova Racing, conquistou três vitórias nos circuitos de Hockenheim, Nurburgring e Silverstone, dois segundos lugares e três terceiros. Com esses resultados, Brack levaria o título facilmente, se não tivesse sido desqualificado da última etapa, após a direção de prova ter considerado que Kenny executou uma ultrapassagem demasiadamente perigosa em cima de Jorg Mullger (que hoje corre pela BMW no WTCC). Dessa forma o sueco terminou a temporada em um honroso segundo lugar no campeonato.


Testando a Benetton B195 em Silverstone 1995.

Várias equipes de Fórmula 1 procuraram Kenny interessadas em contratá-lo. Depois de negociar com cinco equipes, Brack resolveu assinar um contrato com Tom Walkinshaw, que iria comprar a saudosa equipe Ligier, se não fosse por uma intervenção do governo francês que impediu que a sede da Ligier fosse transferida de Magny Cours para a Inglaterra. Dessa maneira, a Ligier acabou ficando com Alain Prost, que mudaria o nome da equipe azul para Prost Racing. Walkinshaw, reconhecido por ser um grande picareta que destruiu a carreira de vários pilotos através de contratos mirabolantes, acabou comprando a Arrows e tomando uma decisão sábia, Brack resolveu cair fora do programa de Walkinshaw, pois não queria correr o risco de acabar com uma carreira tão árdua em um carro ruim. Assim, Kenny decidiu fazer suas malas e ir para os EUA, tentar arranjar uma vaga em uma das duas categorias top de monopostos daquele país, e é este que será o assunto da minha próxima coluna: A consagração de Kenny Brack e sua carreira vitoriosa na CART e na IRL!

2 comentários:

Paulo Maeda™ disse...

Grande texto, vai ser legal relembrar os tempos em que o Brack andava num saudoso carro amarelo e branco com patrocínio da Shell. Parabéns.

Anônimo disse...

O acidente pavoroso do Kenny Brack no Texas Motor Speedway aconteceu nas últimas voltas da corrida final de 2003. Brack e Scheckter vinham disputando a terceira posição lado a lado na reta oposta e os carros se tocaram, fazendo com que o carro de Brack levantasse vôo e se desintegrasse contra a cerca de proteção externa.

O acidente foi gravíssimo e Brack ficou alguns dias internado em estado grave. Achei na época que ele não sobreviveria.

Era uma época fantástica para a IRL em que as corridas em superspeedways como o do Texas eram de tirar o fôlego.

Essa corrida terminou com a vitória de Gil de Ferran (que encerrava a carreira naquela prova) e com Scott Dixon em segundo, que assim garantiu o título daquela temporada, derrotando Gil de Ferran, Hélio Castroneves, Tony Kanaan e Sam Hornish Jr. Simplesmente sensacional.

Pena que o Brasil não viu nada disso ao vivo, pois o Sportv, que na época transmitia a IRL para o Brasil, transmitiu futebol no horário da prova e colocou um VT da corrida bem mais tarde.

Soube do acidente e vi fotos e vídeos do acidente no fórum Downforce que frequentava na época, o que só aumentou minha curiosidade de ver no VT o que realmente tinha acontecido.

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